• Quem pariu a mudernidade que a embale.

    Ah, essa mudernidade de pai filmando parto. Entra o cidadão na sala cirúrgica empunhando sua Sony HDR Xr 160 Full HD, todo emocionado, empatando o trabalho da equipe médica e partindo desajeitado para tomadas de uma legítima produção hardcore – claro: tem close de genitália, mulher em posição ginecológica, três ou quatro coadjuvantes na mesma cena, muito suor e gemido… E no fim das contas, para quê? Mostrar as cenas aos amigos, depois? Reunir todo mundo no domingo e: “Peraí, gente – antes do almoço, vamos ver as cenas do parto!” Os mais habilidosos conseguem escapulir a tempo (“Ih, lembrei que tenho que assistir ao vídeo com os melhores momentos do velório da tia Edilamar!”), mas sempre haverá os incautos a serem abduzidos até a sala de estar e confrontados com a tela da televisão. E que assistirão àquele espetáculo inenarrável pensando no filé à parmegiana que os espera na mesa, logo depois. A conversão ao vegetarianismo será imediata.

    Nada me convence do contrário: mostrar esse tipo de fita aos amigos é dizer “Estão vendo? Não é adotado! É nosso – fomos nós que fizemos!” Pois se o ponto é esse, por que não filmar então a concepção? Do tipo “Esse nenê foi produzido originalmente assim, preto no branco…” O casal chega ao motel, a mulher se deita e estranha o marido, peladão e de pé, olhando impaciente a porta. Ela: “Ué, você não vem?” Ele: “Falta o Mazargão”. Ela: “Ahn?” Sim, Mazargão é o cinegrafista. Que, apesar do nome, é mais baixinho que o Danny de Vito e chega todo esbaforido, trazendo a Sony HDR Xr 160 Full HD. E a mulher, para o marido: “Ué, não sabia que você curtia sacanagem!” Ele: “Não, meu bem. É mudernidade. Quero mais tarde mostrar ao nosso filho o exato momento em que ele foi concebido – tudo com muito carinho, senso de compartilhamento, amor e entrega. O lirismo do ato. Um lance cabeça aberta, entende?” E ela faz “Ahn”, mas é um ahn de decepção, enquanto olha, por cima do ombro do marido, o Mazargão lá de camiseta, suado e ajeitando o tripé da filmadora. Aquelas fantasias com anão, sabe?

    Por outro lado fiquei sabendo que a fita com o velório da tia Edilamar teve umas cenas bem picantes. Assim que conseguir uma cópia eu ponho no Facebook.

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  • Quem escreveu a obra de Shakespeare? (Eric Idle, com tradução minha)

    Como a graciosa tese de que Shakespeare não escreveu as próprias obras (uma dessas febres que acontecem de tempos em tempos, igual baixa do Charlie Seen ou o novo penteado da Lady Gaga) anda fazendo um certo sucessinho, resolvi cometer a audácia de traduzir um texto do Eric Idle a respeito, publicado na New Yorker dia desses. Penei em um ou outro jogo de palavras, mas o auxílio mais que luxuoso da Cynthia salvou tudo. O que sobrou de ruim ou sem graça é culpa inteiramente minha.

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    QUEM ESCREVEU A OBRA DE SHAKESPEARE?

    Eric Idle*

    Se por um lado é perfeitamente óbvio para todo mundo que foi Ben Johnson quem escreveu as peças de Shakespeare, por outro pouca gente sabe que as peças de Ben Johnson foram escritas por uma garota de Sunderland, que sumiu misteriosamente, sem deixar vestígio algum de que tenha existido, o que prova claramente que foi ela quem as escreveu. As peças de Marlowe foram na verdade escritas por uma camareira chamada Marlene, que fingia o próprio orgasmo e acabou fingindo a própria morte durante uma pancadaria em uma taverna de Deptford. A rainha Elizabeth, que era obviamente um homem, tramou para estabelecer Shakespeare como o autor de suas peças, afinal, como poderia um sujeito que tinha apenas o ensino fundamental e falava latim e um pouquinho de grego ter escrito algo tão ruim quanto “Tudo Está Bem Quando Termina Bem?” Não faz sentido. Foi provavelmente algum panaca da nobreza, que resolveu disfarçar sua identidade para que Vanessa Regrave pudesse conseguir trabalho depois de velha.

    Muita gente acha que Ricardo III não apenas era um cara legal, que jamais faria mal a uma mosca, mas que realmente escreveu “She Stoops to Conquer” (“Ela se curva para vencer”), e que o suposto autor, Oliver Goldsmith, encontrou a peça debaixo de uma árvore, em 1773, enquanto visitava Bosworth Field, hoje um prédio de garagens (uma clara tentativa de disfarçar a obviedade da artimanha). As peças de Oscar Wilde foram escritas por um cavalariço chamado Simon, embora Wilde tenha dado uma boa polida tanto numas quanto noutro. A obra de Chaucer foi escrita por um francês em férias, enquanto Simone de Beauvoir escreveu tudo de Balzac e uma boa parte de “Les Misérables”, mesmo ainda não sendo nascida na ocasião. Beau Brummell escreveu quase tudo de Jane Austen, e dois sujeitos e um gato escreveram grande parte dos livros de Charles Dickens, com exceção de “Conto de Duas Cidades”, que Napoleão escreveu quando visitava Santa Helena. Aliás, Napoleão não era Napoleão, mas um homem chamado Trevor Francis, que mais tarde apareceria jogando pelo Birmingham City.

    Thomas Jefferson escreveu a Declaração de Independência com a ajuda de um ghost writer, na verdade uma mulher de cor chamada Betty Mae, que não era trabalhadora voluntária. “Moby Dick” foi escrito não por Heman Melville, mas por Herman Melbrooks, que escreveu boa parte do livro em iídiche, na barca, vindo de Coney Island. “O Pequeno Pepys”, uma condensação em brochura publicada pela Penguin, foi na verdade escrita pelo Pepys grande, um homem chamado Doris Pepys, que não tinha parentesco nenhum, mas que trabalhou como limpador de velas em Wapping (onde morava O Mentiroso, do conto de Henry James). O próprio James escreveu toda a sua obra, porque ninguém mais conseguiria ser tão chato e, principalmente, ninguém se deu ao trabalho de reclamar a autoria.

    A mera falta de provas, claro, não é razão para elaborarmos uma teoria. A do design inteligente, por exemplo: o fato de ser uma grande bobagem não impediu um monte de gente de acreditar nela. O Darwinismo em si é confirmado apenas por uma tonelada de evidências, o que é uma clara indicação de que Darwin não escreveu seus próprios livros. É quase certo que eles foram escritos por Jack, o Estripador, que era provavelmente o rei Edward VII, já que todas as evidências relativas a isso foram destruídas.

    Paranoia? Claro que não. É erudição alternativa. Qual o problema em ensinar teorias alternativas em nossas escolas? Do que os liberais têm medo? As crianças não podem tomar suas próprias decisões sobre coisas como assassinato e porte de armas automáticas no recreio? Bush tinha razão: nenhuma criança deve ficar desarmada. Além do mais, por que essa abordagem ditatorial de ensino? O que dá aos professores o direito de dizer o que as coisas são? Quem pode afirmar que os adeptos da teoria da Terra plana estão errados? Ou que a Igreja não tinha razão ao silenciar Galileu, com sua teoria absurda (na verdade escrita por seu proctologista) de que a Terra se move em torno do Sol? Apelar para “provas” é tão esnobe e elitista… Acho que a gente já sabe o que advogados conseguem fazer com provas. Vejam o Shakespeare, coitado. Escreveu trinta e sete peças, e nenhuma era dele.

    (* Na verdade, mais provavelmente escrito por Michael Palin)

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  • A fina arte de dar o bolo

    – Vamos, você tá atrasado. Nem se vestiu ainda?
    – Ah, eu não ando com paciência pra essas badalações. É só gente olhando, falando mal, fazendo fofoquinha. E tem mais, esse seu vestido aí tá arrasando, você tá esplendorosa: quando chegar lá vai chamar a atenção de todo mundo – nem vai precisar de mim. Acho melhor você ir sozinha. Eu fico em casa, tomando uma cervejinha, vendo o jogo. Quando você voltar, me conta como foi.
    – Mas é seu casamento, meu filho!
    – Oqueeei, oqueeei. Vou me vestir. E eu achando que quando crescesse não ia mais precisar de mãe me levando pra festa.

    *****************

    – Olha, não vou não. Esse lance de fila me dá uma preguiça enorme. E ainda isso de ficar preenchendo papel, depois ter que conversar com o pessoal da fila, gente que eu nem conheço! Tudo isso pra no fim ir até o caixa e ver quanto deu… Não, não é pra mim.
    – Mas é sua noite de autógrafos! Seu primeiro livro!
    – Nhé. Não dá pra deixar minha cadeira vazia e dizerem que é porque eu sou um ghost writer?

    ******************

    – Como não quer ir?
    – Nah, odeio esses bailinhos à fantasia bizarros que fazem hoje. Nossa filha fantasiada de princesa, aquela bicha que ela namora fantasiada de homem, as amigas dela fantasiadas de virgens e o pessoal da banda de música fantasiado de garçom?
    – É a festa de 15 anos dela!
    – Certo. Então entrei no clima: me fantasio de pai ausente!

    ******************

    – Mas hoje você vai ser o centro das atenções!
    – É por isso que eu não quero ir.
    – Mas até onde vai essa sua insociabilidade? Todos vão estar lá por sua causa!
    – Por isso. Por isso. Eu chego e aquelas rodinhas me olhando com benevolência. Um cochicho aqui e outro ali exaltando minhas qualidades. Provavelmente alguém vai pedir a palavra e listar tudo de bom que eu já realizei. Vão revelar então que eu torço pelo América, e muitos vão rir, claro. Vai ter gente chorando. Não, não, é demais pra mim.
    – Mas tem que ser assim, caramba: é teu funeral!
    – Pois é. Aliás, me faz um favor. Vai você e diz que eu não fui porque, sei lá, morri.

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  • Cutelo

    Escrever é cortar, escreveu alguém. Daí, empanzinado de literatura, resolvi ser esquartejador. Nunca pensei que comprar um cutelo desse tanto trabalho. Esperava ser encaminhado a um subsolo de muquifo, onde um atravessador de soturnas olheiras abriria um invólucro de veludo vermelho que, estirado sobre uma mesa de jacarandá, exporia, à luz de uma luminária de teto, vários modelos de cutelo; aí o clandestino fornecedor decretaria, com rouquidão metálica: “a número 5 é a mais indicada para o que você pretende.” Mas não encontrei nada assim, ao menos nos Classificados. Fui obrigado a comprar meu cutelo em uma clara, refrigerada e moderna loja de departamentos, na seção Utensílios de Cozinha. O tédio e o desinteresse da vendedora me fizeram candidatá-la a primeira na lista de esquartejáveis, mas vi logo que ela não tinha perfil literário de vítima de sanguinolência. Poderia incluir também o caixa, que demorou uma eternidade para passar meu cartão na registradora, e o mal-humorado responsável pelo checking; mas todos, de alguma forma, escapuliam dos moldes formais de personagem sacrificial. Chegando em casa, depois de um monumental esforço na rua para ocultar o embrulho e ainda assim percebendo que ninguém dava a mínima, olhei pela última vez este texto no computador e quando vi já estava enxugando alguma coisa lá na parte do subsolo do muquifo e no episódio da compra na loja de departamentos.

    Certo. Por enquanto o cutelo fica na gaveta.

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  • Advérbios, henna e um baita incêndio

    Pelo que sabemos as mortes teriam sido causadas pelo uso impreciso de um advérbio.

    Vanderley apresentava um programa de entrevistas “culturais” no horário da madrugada, que dava traço de audiência – mais uma consideração da emissora à sua condição de repórter social decadente. Vanderley mantinha também o hábito de utilizar “literalmente” fora do contexto. “Estou literalmente cansado”. “O cabelo de nossa entrevistada está literalmente mais curto”. Isso inclusive sempre foi motivo de secreta chacota por parte da equipe do programa, dos técnicos à produção. Ontem à noite, ao entrevistar um professor de português aposentado, Vanderley teve – na conversa em off que antecedia a entrevista – a atenção chamada pelo intelectual, que em voz baixa lhe corrigiu o uso do advérbio: “Significa ao pé da letra. Não é sinônimo de ‘realmente’. Serve para tirar de algum termo sua condição de metáfora. Se a palavra tem duplo sentido, o ‘literalmente’ vem acentuar que o termo está sendo usado em seu conceito original, denotativo.” “Sei, sei”, disse Vanderley entre circunspecto e constrangido, passando os dedos pelos cabelos avermelhados de henna. A entrevista seguinte foi com um cientista maluco que inventara um eletrodo a partir de água mineral. Uma faísca da engenhoca escapuliu, pegou na cortina do cenário, alastrou-se até o papel manteiga que cobria um dos refletores e que já estava superaquecido; o pequeno foco não pôde ser debelado e logo o estúdio estava em chamas. A porta por algum motivo não quis destrancar e o pânico irradiou-se tão rápido quanto as labaredas. Sem lembrar-se do número dos bombeiros, Vanderley só teve tempo de ligar de seu celular para a casa do produtor do programa – e, em meio ao torvelinho, um instante de auto-realização: utilizar corretamente o advérbio. A bateria do celular já acabando e ele só pôde gritar: “O programa está literalmente pegando fogo!” A ligação caiu e o produtor voltou a dormir, satisfeito, imaginando que a audiência deveria estar reagindo.

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