• A fina arte de dar o bolo

    – Vamos, você tá atrasado. Nem se vestiu ainda?
    – Ah, eu não ando com paciência pra essas badalações. É só gente olhando, falando mal, fazendo fofoquinha. E tem mais, esse seu vestido aí tá arrasando, você tá esplendorosa: quando chegar lá vai chamar a atenção de todo mundo – nem vai precisar de mim. Acho melhor você ir sozinha. Eu fico em casa, tomando uma cervejinha, vendo o jogo. Quando você voltar, me conta como foi.
    – Mas é seu casamento, meu filho!
    – Oqueeei, oqueeei. Vou me vestir. E eu achando que quando crescesse não ia mais precisar de mãe me levando pra festa.

    *****************

    – Olha, não vou não. Esse lance de fila me dá uma preguiça enorme. E ainda isso de ficar preenchendo papel, depois ter que conversar com o pessoal da fila, gente que eu nem conheço! Tudo isso pra no fim ir até o caixa e ver quanto deu… Não, não é pra mim.
    – Mas é sua noite de autógrafos! Seu primeiro livro!
    – Nhé. Não dá pra deixar minha cadeira vazia e dizerem que é porque eu sou um ghost writer?

    ******************

    – Como não quer ir?
    – Nah, odeio esses bailinhos à fantasia bizarros que fazem hoje. Nossa filha fantasiada de princesa, aquela bicha que ela namora fantasiada de homem, as amigas dela fantasiadas de virgens e o pessoal da banda de música fantasiado de garçom?
    – É a festa de 15 anos dela!
    – Certo. Então entrei no clima: me fantasio de pai ausente!

    ******************

    – Mas hoje você vai ser o centro das atenções!
    – É por isso que eu não quero ir.
    – Mas até onde vai essa sua insociabilidade? Todos vão estar lá por sua causa!
    – Por isso. Por isso. Eu chego e aquelas rodinhas me olhando com benevolência. Um cochicho aqui e outro ali exaltando minhas qualidades. Provavelmente alguém vai pedir a palavra e listar tudo de bom que eu já realizei. Vão revelar então que eu torço pelo América, e muitos vão rir, claro. Vai ter gente chorando. Não, não, é demais pra mim.
    – Mas tem que ser assim, caramba: é teu funeral!
    – Pois é. Aliás, me faz um favor. Vai você e diz que eu não fui porque, sei lá, morri.

    Voltar

    Uma resposta a A fina arte de dar o bolo

    1. rubens osorio disse:

      Cara, vc é craque… nessa coisa de dar bolo, né não???
      …tá bão, vai… é craque na escrita tb, vai.

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

    *

    Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

    Código de verificação: